quarta-feira, 27 de julho de 2016

Hoje avental, amanhã luva


Publicada originalmente A Marmota, Rio de Janeiro, março de 1860.

Transcrita em Páginas Esquecidas , de Machado de Assis, Rio de Janeiro: Ed Casa Mandarino, 1939.

Comédia em um ato imitada do francês por Machado de Assis


PERSONAGENS


DURVAL
ROSINHA
BENTO

Rio de Janeiro — Carnaval de 1859. (Sala elegante. Piano, canapé, cadeiras, uma jarra de flores em uma mesa à direita alta. Portas laterais no fundo.)

Cena I


ROSINHA (Adormecida no canapé);
DURVAL (entrando pela porta do fundo)
DURVAL
Onde está a Sra. Sofia de Melo?... Não vejo ninguém. Depois de dois anos como venho encontrar estes sítios! Quem sabe se em vez da palavra dos cumprimentos deverei trazer a palavra dos epitáfios! Como tem crescido isto em opulência!... mas... (vendo Rosinha) Oh! Cá está a criadinha. Dorme!... excelente passatempo... Será adepta de Epicuro? Vejamos se a acordo... (dá-lhe um beijo)
ROSINHA
(acordando)
Ah! Que é isto? (levanta-se) O Sr. Durval? Há dois anos que tinha desaparecido... Não o esperava.
DURVAL Sim, sou eu, minha menina. Tua ama?
ROSINHA
Está ainda no quarto. Vou dizer-lhe que V. S. está (vai para entrar) Mas, espere; diga-me uma coisa. DURVAL Duas, minha pequena. Estou à tua disposição. (à parte) Não é má coisinha! ROSINHA Diga-me. V. S. levou dois anos sem aqui pôr os pés: por que diabo volta agora
sem mais nem menos? DURVAL
(tirando o sobretudo que deita sobre o canapé)
És curiosa. Pois sabe que venho para... para mostrar a Sofia que estou ainda o mesmo. ROSINHA Está mesmo? moralmente, não? DURVAL É boa! Tenho então alguma ruga que indique decadência física? ROSINHA Do físico... não há nada que dizer.
DURVAL Pois do moral estou também no mesmo. Cresce com os anos o meu amor; e o amor é como o vinho do Porto: quanto mais velho, melhor. Mas tu! Tens mudado muito, mas como mudam as flores em botão: ficando mais bela.
ROSINHA Sempre amável, Sr. Durval. DURVAL Costume da mocidade. (quer dar-lhe um beijo) ROSINHA
(fugindo e com severidade)
Sr. Durval!... DURVAL E então! Foges agora! Em outro tempo não eras difícil nas tuas beijocas. Ora
vamos! Não tens uma amabilidade para este camarada que de tão longe volta!
ROSINHA
Não quero graças. Agora é outro cantar! Há dois anos eu era uma tola inexperiente... mas hoje! DURVAL Está bem. Mas... ROSINHA Tenciona ficar aqui no Rio? DURVAL
(sentando-se)
Como o Corcovado, enraizado como ele. Já me doíam saudades desta boa cidade. A roça, não há coisa pior! Passei lá dois anos bem insípidos — em uma vida uniforme e matemática como um ponteiro de relógio: jogava gamão, colhia café e plantava batatas. Nem teatro lírico, nem rua do Ouvidor, nem Petalógica! Solidão e mais nada. Mas, viva o amor! Um dia concebi o projeto de me safar e aqui estou. Sou agora a borboleta, deixei a crisálida, e aqui me vou em busca de vergéis.
(tenta um novo beijo)
ROSINHA
(fugindo)
Não teme queimar as asas? DURVAL Em que fogo? Ah! Nos olhos de Sofia! Está mudada também? ROSINHA Sou suspeita. Com seus próprios olhos o verá. DURVAL Era elegante e bela há bons dois anos. Sê-lo-á ainda? Não será? Dilema de Hamlet.
E como gostava de flores! Lembras-te? Aceitava-mas sempre não sei se por mim, se pelas flores; mas é de crer que fosse por mim. ROSINHA Ela gostava tanto de flores!
DURVAL Obrigado. Dize-me cá. Por que diabo sendo uma criada, tiveste sempre tanto espírito e mesmo...
ROSINHA Não sabe? Eu lhe digo. Em Lisboa, donde viemos para aqui, fomos condiscípulas: estudamos no mesmo colégio, e comemos à mesma mesa. Mas, coisas do mundo!... Ela tornou-se ama e eu criada! É verdade que me trata com distinção, e conversamos às vezes em altas coisas.
DURVAL
Ah! é isso? Foram condiscípulas. (levanta-se) E conversam agora em altas coisas!... Pois eis-me aqui para conversar também; faremos um trio admirável. ROSINHA Vou participar-lhe a sua chegada. DURVAL Sim, vai, vai. Mas olha cá, uma palavra. ROSINHA Uma só, entende? DURVAL Dás-me um beijo? ROSINHA Bem vê que são três palavras. (entra à direita)
Cena II
DURVAL e BENTO DURVAL Bravo! A pequena não é tola... tem mesmo muito espírito! Eu gosto dela, gosto!
Mas é preciso dar-me ao respeito. (vai ao fundo e chama) Bento! (descendo) Ora depois de dois anos como virei encontrar isto? Sofia terá por mim a mesma queda? É isso o que vou sondar. É provável que nada perdesse dos antigos sentimentos. Oh! decerto! Vou começar por levá-la ao baile mascarado; há de aceitar, não pode deixar de aceitar! Então, Bento! mariola?
BENTO (entrando com um jornal) Pronto. DURVAL Ainda agora! Tens um péssimo defeito para boleeiro, é não ouvir.
BENTO Eu estava embebido com a interessante leitura do Jornal do Comércio: ei-lo. Muito mudadas estão estas coisas por aqui! Não faz uma idéia! E a política? Esperam-se coisas terríveis do parlamento.
DURVAL
Não me maçes, mariola! Vai abaixo ao carro e traz uma caixa de papelão que lá está... Anda! BENTO Sim, senhor; mas admira-me que V. S. não preste atenção ao estado das coisas.
DURVAL Mas que tens tu com isso, tratante? BENTO Eu nada; mas creio que... DURVAL Salta lá para o carro, e traz a caixa depressa!
Cena III
DURVAL e ROSINHA DURVAL Pedaço d'asno! Sempre a ler jornais; sempre a tagarelar sobre aquilo que menos
lhe deve importar! (vendo Rosinha) Ah!... és tu? Então ela... (levanta-se) ROSINHA Está na outra sala à sua espera. DURVAL Bem, aí vou. (vai entrar e volta) Ah! recebe a caixa de papelão que trouxer meu
boleeiro. ROSINHA Sim, senhor. DURVAL Com cuidado, meu colibri! ROSINHA Galante nome! Não será em seu coração que farei o meu ninho. DURVAL
(à parte) Ah! É bem engraçada a rapariga! (vai-se)
Cena IV
ROSINHA, DEPOIS BENTO
ROSINHA
Muito bem, Sr. Durval. Então voltou ainda? É a hora de minha vingança. Há dois anos, tola como eu era, quiseste seduzir-me, perder-me, como a muitas outras! E como? mandando-me dinheiro... dinheiro! — Media as infâmias pela posição. Assentava de... Oh! mas deixa estar! vais pagar tudo... Gosto de ver essa gente que não enxerga sentimento nas pessoas de condição baixa... como se quem traz um avental, não pode também calçar uma luva!
BENTO
(traz uma caixa de papelão)
Aqui está a caixa em questão... (põe a caixa sobre uma cadeira) Ora, viva! Esta caixa é de meu amo. ROSINHA Deixe-a ficar. BENTO
(tirando o jornal do bolso) Fica entregue, não? Ora bem! Vou continuar a minha interessante leitura... Estou
na gazetilha — Estou pasmado de ver como vão as coisas por aqui! — Vão a pior. Esta folha põe-me ao fato de grandes novidades. ROSINHA
(sentando-se de costas para ele)
Muito velhas para mim. BENTO
(com desdém)
Muito velhas? Concedo. Cá para mim têm toda a frescura da véspera. ROSINHA
(consigo)
Quererá ficar? BENTO
(sentando-se do outro lado) Ainda uma vista d'olhos! (abre o jornal) ROSINHA
E então não se assentou? BENTO
(lendo)
Ainda um caso: Ontem à noite desapareceu uma nédia e numerosa criação de aves domésticas. Não se pôde descobrir os ladrões, porque, desgraçadamente havia uma patrulha a dois passos dali.
ROSINHA
(levantando-se)
Ora, que aborrecimento! BENTO
(continuando)
“Não é o primeiro caso que dá nesta casa da rua dos Inválidos. (consigo) Como vai isto, meu Deus!
ROSINHA (Abrindo a caixa) Que belo dominó! BENTO
(indo a ela)
Não mexa! Creio que é para ir ao baile mascarado hoje... ROSINHA Ah!... (silêncio) Um baile... hei de ir também! BENTO Aonde? Ao baile? Ora esta! ROSINHA E por que não? BENTO Pode ser; contudo, quer vás, quer não vás, deixa-me ir acabar a minha leitura
naquela sala de espera. ROSINHA Não... tenho uma coisa a tratar contigo. BENTO
(lisonjeado) Comigo, minha bela! ROSINHA Queres servir-me em uma coisa? BENTO
(severo) Eu cá só sirvo ao Sr. Durval, e é na boléia! ROSINHA Pois hás de me servir. Não és então um rapaz como os outros boleeiros, amável e
serviçal... BENTO Vá feito... não deixo de ser amável; é mesmo o meu capítulo de predileção. ROSINHA Pois escuta. Vais fazer um papel, um bonito papel. BENTO
Não entendo desse fabrico. Se quiser algumas lições sobre a maneira de dar uma volta, sobre o governo das rédeas em um trote largo, ou coisa cá do meu ofício, pronto me encontra.
ROSINHA
(que tem ido buscar o ramalhete no jarro)
Olha cá: sabes o que é isso?
BENTO
São flores.
ROSINHA
É o ramalhete diário de um fidalgo espanhol que viaja incógnito.
BENTO
Ah! (toma o ramalhete)
ROSINHA (indo a uma gaveta buscar um papel) O Sr. Durval conhece a tua letra? BENTO Conhece apenas uma. Eu tenho diversos modos de escrever. ROSINHA Pois bem; copia isto. (dá-lhe o papel) Com letra que ele não conheça. BENTO Mas o que é isto? ROSINHA Ora, que te importa? És uma simples máquina. Sabes tu o que vai fazer quando o
teu amo te indica uma direção ao carro? Estamos aqui no mesmo caso. BENTO Fala como um livro! Aqui vai. (escreve) ROSINHA Que amontoado de garatujas!... BENTO Cheira a diplomata. Devo assinar? ROSINHA Que se não entenda.
BENTO Como um perfeito fidalgo. (escreve) ROSINHA Subscritada para mim. À Sra. Rosinha. (Bento escreve) Põe agora este bilhete
nesse e leva. Voltarás a propósito. Tens também muitas vozes? BENTO Vario de fala, como de letra. ROSINHA Imitarás o sotaque espanhol? BENTO Como quem bebe um copo d’água! ROSINHA Silêncio! Ali está o Sr. Durval.
Cena V
ROSINHA, BENTO, DURVAL DURVAL (a Bento) Trouxeste a caixa, palerma? BENTO
(escondendo atrás das costas o ramalhete) Sim, senhor. DURVAL Traz a carruagem para o portão BENTO Sim senhor. (Durval vai vestir o sobretudo, mirando-se ao espelho) O jornal? Onde
pus eu o jornal? (sentindo-o no bolso) Ah!... ROSINHA
(baixo a Bento) Não passes na sala de espera. (Bento sai)
Cena VI
DURVAL, ROSINHA
DURVAL Adeus, Rosinha, é preciso que eu me retire. ROSINHA
(à parte) Pois não! DURVAL Dá essa caixa a tua ama. ROSINHA Vai sempre ao baile com ela? DURVAL Ao baile? Então abriste caixa? ROSINHA Não vale a pena falar nisso. Já sei, já sei que foi recebido de braços abertos. DURVAL Exatamente. Era a ovelha que voltava ao aprisco depois de dois anos de
apartamento. ROSINHA Já vê que andar longe não é mau. A volta é sempre um triunfo. Use, abuse mesmo
da receita. Mas então sempre vai ao baile? DURVAL Nada sei de positivo. As mulheres são como os logogrifos. O espírito se perde no
meio daquelas combinações... ROSINHA Fastidiosas, seja franco. DURVAL É um aleive: não é esse o meu pensamento. Contudo devo, parece-me dever crer,
que ela irá. Como me alegra, e me entusiasma esta preferência que me dá a bela Sofia! ROSINHA Preferência? Há engano: preferir supõe escolha, supõe concorrência... DURVAL E então? ROSINHA
E então, se ela vai ao baile é unicamente pelos seus bonitos olhos, se não fora V. S., ela não ia. DURVAL
Como é isso? ROSINHA (indo ao espelho)
Mire-se neste espelho. DURVAL Aqui me tens ROSINHA O que vê nele? DURVAL Boa pergunta! Vejo-me a mim próprio. ROSINHA Pois bem. Está vendo toda a corte da Sra. Sofia, todos os seus adoradores. DURVAL Todos! Não é possível. Há dois anos a bela senhora era a flor bafejada por uma
legião de zéfiros... Não é possível. ROSINHA Parece-me criança! Algum dia os zéfiros foram estacionários? Os zéfiros passam e
mais nada. É. o símbolo do amor moderno. DURVAL E a flor fica no hastil. Mas as flores duram uma manhã apenas. (severo) Quererás
tu dizer que Sofia passou a manhã das flores? ROSINHA Ora, isso é loucura. Eu disse isto? DURVAL
(pondo a bengala junto ao piano) Parece-me entretanto... ROSINHA
V. S. tem uma natureza de sensitiva; por outra, toma os recados na escada. Acredite ou não, o que lhe digo é a pura verdade. Não vá pensar que o afirmo assim para conservá-lo junto de mim: estimara mais o contrário.
DURVAL (sentando-se)
Talvez queiras fazer crer que Sofia é alguma fruta passada, ou jóia esquecida no fundo da gaveta por não estar em moda. Estais enganada. Acabo de vê-la; acho-lhe ainda o mesmo rosto: vinte e oito anos, apenas.
ROSINHA
Acredito.
DURVAL
É ainda a mesma: deliciosa.
ROSINHA
Não sei se ela lhe esconde algum segredo.
DURVAL
Nenhum.
ROSINHA
Pois esconde. Ainda lhe não mostrou a certidão de batismo. (vai sentar-se ao lado
oposto) DURVAL Rosinha! E depois, que me importa? Ela é ainda aquele querubim do passado. Tem
uma cintura... que cintura! ROSINHA É verdade. Os meus dedos que o digam! DURVAL Hein? E o corado daquelas faces, o alvo daquele colo, o preto daquelas
sobrancelhas?
ROSINHA (levantando-se) Ilusão! Tudo isso é tabuleta do Desmarais; aquela cabeça passa pelas minhas
mãos. É uma beleza de pó de arroz: mais nada. DURVAL
(levantando-se bruscamente)
Oh! Essa agora!
ROSINHA (à parte) A pobre senhora está morta! DURVAL Mas, que diabo! Não é um caso de me lastimar; não tenho razão disso. O tempo
corre para todos, e portanto a mesma onda nos levou a ambos folhagens da
mocidade. E depois eu amo aquela engraçada mulher! ROSINHA Reciprocidade; ela também o ama. DURVAL
(com um grande prazer)
Ah! ROSINHA Duas vezes chegou à estação do campo para tomar o wagon, mas duas vezes
voltou para casa. Temia algum desastre da maldita estrada de ferro! DURVAL Que amor! Só recuou diante da estrada de ferro! ROSINHA Eu tenho um livro de notas, donde talvez lhe possa tirar provas do amor da Sra.
Sofia. É uma lista cronológica e alfabética dos colibris que por aqui têm esvoaçado. DURVAL Abre lá isso então! ROSINHA
(folheando um livro) Vou procurar. DURVAL Tem aí todas as letras? ROSINHA Todas. É pouco agradável para V. S.; mas tem todas desde A até o Z. DURVAL Desejara saber quem foi a letra K. ROSINHA É fácil; algum alemão. DURVAL Ah! Ela também cultiva os alemães? ROSINHA Durval é a letra D. — Ah! Ei-lo: (lendo) “Durval, quarenta e oito anos de idade...” DURVAL
Engano! Não tenho mais de quarenta e seis. ROSINHA Mas esta nota foi escrita há dois anos. DURVAL Razão demais. Se tenho hoje quarenta e seis, há dois tinha quarenta e quatro... e
claro! ROSINHA Nada. Há dois anos devia ter cinqüenta. DURVAL Esta mulher é um logogrifo! ROSINHA
V. S. chegou a um período em sua vida em que a mocidade começa a voltar; em cada ano, são doze meses de verdura que voltam como andorinhas na primavera. DURVAL
Já me cheirava a epigrama. Mas vamos adiante com isso. ROSINHA (fechando o livro)
Bom! Já sei onde estão as provas. (vai a uma gaveta e tira dela uma carta) Ouça:
— Querida Amélia... DURVAL Que é isso? ROSINHA Uma carta da ama a uma sua amiga. Querida Amélia: o Sr. Durval é um homem
interessante, rico, amável, manso como um cordeiro, e submisso como o meu Cupido... (a Durval) Cupido é um cão d'água que ela tem. DURVAL A comparação é grotesca na forma, mas exata no fundo. Continua, rapariga. ROSINHA
(lendo)
“Acho-lhe contudo alguns defeitos... DURVAL Defeitos? ROSINHA “Certas maneiras, certos ridículos, pouco espírito, muito falatório, mas afinal um
marido com todas as virtudes necessárias... DURVAL É demais ROSINHA “Quando eu conseguir isso, peço-te que venhas vê-lo como um urso na chácara do
Souto. DURVAL Um urso! ROSINHA
(lendo) Esquecia-me de dizer-te que o Sr. Durval usa de cabeleira. (fecha a carta) DURVAL Cabeleira! É uma calúnia! Uma calúnia atroz! (levando a mão ao meio da cabeça,
que está calva) Se eu usasse de cabeleira... ROSINHA Tinha cabelos, é claro. DURVAL
(passeando com agitação)
Cabeleira! E depois fazer-me seu urso como um marido na chácara do Souto. ROSINHA
(às gargalhadas) Ah! ah! ah! (vai-se pelo fundo)
Cena VII
DURVAL
(passeando)
É demais! E então quem fala! uma mulher que tem umas faces... Oh! é o cúmulo da impudência! É aquela mulher furta-cor, aquele arco-íris que tem a liberdade de zombar de mim!... (procurando) Rosinha! Ah! foi-se embora... (sentando-se) Oh! Se eu me tivesse conservado na roça, ao menos lá não teria dessas apoquentações!...Aqui na cidade, o prazer é misturado com zangas de acabrunhar
o espírito mais superior! Nada! (levanta-se) Decididamente volto para lá... Entretanto, cheguei há pouco... Não sei se deva ir; seria dar cavaco com aquela mulher; e eu... Que fazer? Não sei, deveras!
Cena VIII
DURVAL e BENTO (de paletó, chapéu de palha, sem botas) BENTO
(mudando a voz) Para a Sra. Rosinha. (põe o ramalhete sobre a mesa) DURVAL Está entregue. BENTO
(à parte)
Não me conhece! Ainda bem. DURVAL Está entregue. BENTO Sim, senhor! (sai pelo fundo)
Cena IX
DURVAL
(só, indo buscar o ramalhete)
Ah!ah!flores! A Sra. Rosinha tem quem lhe mande flores! Algum boleeiro estúpido. Estas mulheres são de um gosto esquisito às vezes! — Mas como isto cheira! Dirse-ia um presente de fidalgo! (vendo a cartinha) Oh! que é isto? Um bilhete de amores! E como cheira! Não conheço esta letra; o talho é rasgado e firme, como de quem desdenha. (levando a cartinha ao nariz) Essência de violeta, creio eu. É uma planta obscura, que também tem os seus satélites. Todos os têm. Esta cartinha é um belo assunto para uma dissertação filosófica e social. Com efeito: quem diria que esta moça, colocada tão baixo, teria bilhetes perfumados!... (leva ao nariz) Decididamente é essência de magnólias!
Cena X
ROSINHA (no fundo) DURVAL (no proscênio)
ROSINHA (consigo) Muito bem! Lá foi ela visitar a sua amiga no Botafogo. Estou completamente livre.
(desce)
DURVAL (escondendo a carta) Ah! és tu? Quem te manda destes presentes? ROSINHA Mais um. Dê-me a carta. DURVAL A carta? É boa! é coisa que não vi.
ROSINHA
Ora não brinque! Devia trazer uma carta. Não vê que um ramalhete de flores é um estafeta mais seguro do que o correio da corte! DURVAL
(dando-lhe a carta)
Aqui a tens; não é possível mentir. ROSINHA Então! (lê o bilhete) DURVAL Quem é o feliz mortal? ROSINHA Curioso! DURVAL É moço ainda? ROSINHA Diga-me: é muito longe daqui a sua roça? DURVAL É rico, é bonito? ROSINHA Dista muito da última estação? DURVAL Não me ouves, Rosinha? ROSINHA Se o ouço! É curioso, e vou satisfazer-lhe a curiosidade. É rico, é moço e é bonito.
Está satisfeito? DURVAL Deveras! E chama-se?... ROSINHA Chama-se... Ora eu não me estou confessando! DURVAL És encantadora!
ROSINHA
Isso é velho. E o que me dizem os homens e os espelhos. Nem uns nem outros
mentem.
DURVAL
Sempre graciosa!
ROSINHA
Se eu o acreditar, arrisca-se a perder a liberdade... tomando uma capa...
DURVAL
De marido, queres dizer (à parte) ou de um urso! (alto) Não tenho medo disso.
Bem vês a alta posição... e depois eu prefiro apreciar-te as qualidades de fora. Talvez leve a minha amabilidade a fazer-te um madrigal. ROSINHA Ora essa!
DURVAL Mas, fora com tanto tagarelar! Olha cá! Eu estou disposto a perdoar aquela carta; Sofia vem sempre ao baile?
ROSINHA
Tanto como o imperador dos turcos... Recusa.
DURVAL
Recusa! É o cúmulo da... E por que recusa?
ROSINHA
Eu sei lá! Talvez um nervoso; não sei!
DURVAL
Recusa! Não faz mal... Não quer vir, tanto melhor! Tudo está acabado, Sra. Sofia
de Melo! Nem uma atenção ao menos comigo, que vim da roça por sua causa unicamente! Recebe-me com agrado, e depois faz-me destas! ROSINHA Boa noite, Sr. Durval. DURVAL Não te vás assim; conversemos ainda um pedaço. ROSINHA Às onze horas e meia... interessante conversa! DURVAL
(sentando-se)
Ora que tem isso? Não são horas que fazem a conversa interessante, mas os interlocutores. ROSINHA Ora tenha a bondade de não dirigir cumprimentos.
DURVAL Mal sabes que tens as mãos, como as de uma patrícia romana; parecem calçadas de luva, se é que uma luva pode ter estas veias azuis como rajadas de mármore.
ROSINHA
(à parte)
Ah! Hein!
DURVAL
E esses olhos de Helena!
ROSINHA
Ora!
DURVAL
E estes bravos de Cleópatra! ROSINHA (à parte)
Bonito!
DURVAL
Apre! Queres que esgote a história?
ROSINHA
Oh! não!
DURVAL
Então por que se recolhe tão cedo a estrela d'alva?
ROSINHA
Não tenho outra coisa a fazer diante do sol.
DURVAL
Ainda um cumprimento! (vai à caixa de papelão) Olha cá. Sabes o que há aqui?
um dominó. ROSINHA
(aproximando-se)
Cor-de-rosa! Ora vista, há de ficar-lhe bem.
DURVAL
Dizia um célebre grego: dê-me pancadas, mas ouça-me! — Parodio aquele dito: — Ri, graceja, como quiseres, mas hás de escutar-me: (desdobrando o dominó) não achas bonito?
ROSINHA
(aproximando-se)
Oh! decerto! DURVAL Parece que foi feito para ti!... É da mesma altura. E como te há de ficar! Ora,
experimenta! ROSINHA Obrigado. DURVAL Ora vamos! experimenta; não custa. ROSINHA Vá feito se é só para experimentar. DURVAL
(vestindo-lhe o dominó)
Primeira manga. ROSINHA E segunda! (veste-o de todo) DURVAL Delicioso. Mira-te naquele espelho. (Rosinha obedece) Então! ROSINHA
(passeando) Fica-me bem? DURVAL
(seguindo-a)
A matar! a matar! (à parte) A minha vingança começa, Sra. Sofia de melo! (a Rosinha) Estás esplêndida! Deixa dar-te um beijo? ROSINHA Tenha mão. DURVAL Isso agora é que não tem grata!
ROSINHA Em que oceano de fitas e de sedas estou mergulhada! (dá meia-noite) Meia-noite! DURVAL Meia-noite! ROSINHA Vou tirar o dominó... é pena! DURVAL Qual tirá-lo! Fica com ele. (pega no chapéu e nas luvas) ROSINHA Não é possível. DURVAL Vamos ao baile mascarado. ROSINHA (à parte) Enfim. (alto) Infelizmente não posso. DURVAL Não pode? e então por quê? ROSINHA É segredo. DURVAL Recusas? Não sabes o que é um baile. Vais ficar extasiada. E um mundo fantástico,
ébrio, movediço, que corre, que salta, que ri, em um turbilhão de harmonias extravagantes! ROSINHA Não posso ir. (batem à porta) [à parte] É Bento. DURVAL Quem será? ROSINHA
Não sei. (indo ao fundo) Quem bate? BENTO (fora com a voz contrafeita)
O hidalgo Don Alonso da Sylveira y Zorrilla y Guclines y Guatinara y Marouflas de
la Vega ! DURVAL (Assustado)
É um batalhão que temos à porta! A Espanha muda-se para cá? ROSINHA Caluda! Não sabe quem está ali? É um fidalgo da primeira nobreza de Espanha.
Fala à rainha de chapéu na cabeça. DURVAL E que quer ele? ROSINHA A resposta daquele ramalhete. DURVAL
(dando um pulo) Ah! Foi ele... ROSINHA Silêncio! BENTO
(fora) É meia-noite. O baile vai começar. ROSINHA Espere um momento. DURVAL Que espere! Mando-o embora. (à parte) É um fidalgo! ROSINHA Mandá-lo embora? Pelo contrário; vou mudar de dominó e partir com ele. DURVAL Não, não; não faças isso! BENTO
(fora)
É meio-noite e cinco minutos. Abre a porta a quem deve ser teu marido. DURVAL Teu marido!
ROSINHA E então! BENTO Abre! abre! DURVAL É demais! Estás com o meu dominó... hás de ir comigo ao baile! ROSINHA Não é possível; não se trata a um fidalgo espanhol como a um cão. Devo ir com
ele. DURVAL Não quero que vás. ROSINHA Hei de ir.(dispõe-se a tirar o dominó) Tome lá... DURVAL
(impedindo-a)
Rosinha, ele é um espanhol, e além de espanhol, fidalgo. Repara que é uma dupla cruz com que tens de carregar. ROSINHA Qual cruz! E não se casa ele comigo? DURVAL Não caias nessa! BENTO
(fora)
Meia-noite e dez minutos! então vem ou não vem? ROSINHA Lá vou. (a Durval) Vê como se impacienta! Tudo aquilo é amor! DURVAL
(com explosão)
Amor! E se eu te desse em troca daquele amor castelhano, um amor brasileiro ardente e apaixonado? Sim, eu te amo, Rosinha; deixa esse espanhol tresloucado! ROSINHA Sr. Durval! DURVAL
Então, decide! ROSINHA Não grite! Aquilo é mais forte do que um tigre de Bengala. DURVAL Deixa-o; eu matei as onças do Maranhão e já estou acostumado com esses
animais. Então? Vamos! Eis-me a teus pés, ofereço-te a minha mão e a minha fortuna! ROSINHA
(à parte) Ah... (alto) Mas o fidalgo? BENTO
(fora)
É meia-noite e doze minutos!
DURVAL
Manda-o embora, ou senão, espera. (levanta-se) Vou matá-lo; é o meio mais pronto. ROSINHA Não, não; evitemos a morte. Para não ver correr sangue, aceito a sua proposta. DURVAL
(com regozijo)
Venci o castelhano! É um magnífico triunfo! Vem, minha bela; o baile nos espera! ROSINHA Vamos. Mas repare na enormidade do sacrifício. DURVAL Serás compensada, Rosinha. Que linda peça de entrada! (à parte) São dois os
enganados — o fidalgo e Sofia (alto) Ah! ah! ah! ROSINHA
(rindo também) Ah! Ah! Ah! (à parte) Eis-me vingada! DURVAL Silêncio! (vão pé ante pela porta da esquerda. Sai Rosinha primeiro, e Durval, da
soleira da porta para a porta do fundo, a rir às gargalhadas)
Cena última
BENTO
(abrindo a porta do fundo)
Ninguém mais! Desempenhei a meu papel: estou contente! Aquela subiu um degrau na sociedade. Deverei ficar assim? Alguma baronesa não me desdenharia decerto. Virei mais tarde. Por enquanto, vou abrir a portinhola. (vai a sair e cai o pano)
FIM






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